495450580893305 Movimento estudantil já ocupa cinco colégios em Campina; veja como funciona as ocupações

Movimento estudantil já ocupa cinco colégios em Campina; veja como funciona as ocupações



Cinco colégios estaduais de Campina Grande do Sul estão ocupados por estudantes do ensino médio desde a última sexta-feira (14). Contrários a reforma do Ensino Médio e também à PEC 241 impostas pelo governo federal, o grupo assumiu o comando das unidades de ensino com o lema “ocupar e resistir”.

No município até o momento foram ocupados os colégios Bandeirantes (Jardim Graciosa), Timbu Velho (Timbu), Campos Sales (Sede), Ivan Ferreira do Amaral (Jardim Paulista) e João Maria de Barros (Santa Rosa), último a ser ocupado na manhã desta quarta-feira (19). De forma pacífica e ordenha, os alunos se concentram em uma espécie de acampamento nesses locais 24 horas por dia, onde desenvolvem nesse período diversas atividades.

Antes das ocupações os alunos promoveram assembleias e debates em seus próprios colégios para definir se a ocupação aconteceria ou não. O movimento tem apoio da UNE (União Nacional dos Estudantes) e conta também com a participação de alguns pais e familiares, que incentivam e acompanham os filhos nas atividades. Contradizendo até mesmo alguns comentários que circulam nas redes sociais que pressupõem que os alunos não sabem por que protestam, os estudantes demonstram muita clareza sobre os motivos que os levaram a ocupar a escola.

Os alunos dizem ser contrários a reforma do ensino médio imposta pelo governo federal que entre outras medidas retira a obrigatoriedade de matérias como Sociologia, Filosofia Artes e Educação Física. Segundo uma das representantes do Movimento no Colégio Timbu, de 17 anos, a reforma é necessária, mas não da forma como esta sendo feita, imposta e sem ampla consulta com os principais afetados, alunos e professores.

Já em relação a PEC 241, Carlos Gabriel (18), outro representante do Movimento no Colégio Timbu, o jovem considera que há incoerências entre uma proposta e outra, pois segundo ele, ao mesmo tempo que a reforma prevê aumento da carga horária diária para os alunos, por outro lado a mesma PEC prevê a estagnação do repasse de verbas para a Educação. "Para que isso aconteça é necessário uma reforma e adequação das escolas, pois as mesmas não possuem condições para receberem alunos em tempo integral", conta.

A ocupação vista do lado de dentro do colégio

O Linkada News esteve no colégio Timbu Velho para entender a rotina vivida pelos alunos. Os responsáveis acima citados guiaram nossa reportagem pelos corredores do colégio ocupado e mostraram como é a organização do movimento.

Diferente do que pode ser imaginado por muitos pais e a comunidade em geral, de que dentro do colégio ocupado impera a bagunça e a desordem, a realidade encontrada por lá é totalmente outra, a começar pelas regras rígidas criadas pelos próprios alunos, que estão nos cartazes espalhados pelas paredes, salas e na entrada da unidade de ensino.

Algumas regras e cronogramas a serem seguidos definem as atividades de manutenção da escola (pintura, limpeza e etc.), horário das refeições, horário de saída e chegada dos alunos, horário de dormir e acordar, incluindo também a organização de reuniões com a comunidade escolar e debates sobre os rumos do movimento.

“Temos um controle de acesso e regras a serem seguidas por todos, cada uma com horário determinado. Almoço, café, hora de levantar, de dormir, entre outras atividades”, afirma Carlos Gabriel, que conta ainda que a ideia futura é abrir a escola para que toda a comunidade também possa estar participando das atividades, criando um grande grupo de voluntários nas ações.

Outros detalhes da ocupação chamam a atenção como a presença durante a noite dos responsáveis quando os alunos são menores, a separação de alojamentos para meninas e para meninos, rondas diárias e noturnas para verificação da normalidade dentro do espaço ocupado, toque de recolher, entre outras ações.

A diarista Silvane Has, mãe de uma aluna do Timbu, acompanhava a filha no dia de nossa visita. Ela compartilhou da experiência em apoiar a iniciativa dos estudantes. As alunas e irmãs Alexsandra Rosa Dias e Bruna Cardoso dos Santos, ambas maiores de idade, também conversaram conosco momentos antes do toque de recolher no colégio. Confira abaixo o vídeo destas entrevistas:


Questionados se houve participação dos professores no processo de decisão da ocupação, os alunos foram enfáticos em dizer que não. Segundos o grupo, este é um movimento genuinamente estudantil, reenfatizando que eles contam com assessoria da UNE inclusive no campo jurídico.

Ainda perguntados se houve interferência ou resistência por parte da direção do colégio, eles disseram que não, que a direção adotou postura democrática e republicana, mas que em outros colégios, segundo os colegas, houve até o registro de boletim de ocorrência por parte da direção escolar contra os alunos.

Confira abaixo alguns dos detalhes da ocupação:

Dormitórios separados


Para uma noite de descanso, a organização da ocupação definiu dormitórios separados para as meninas e meninos.

Tal medida segundo o grupo, visa manter a ordem respeitando as individualidades de ambos os sexos. Há também um horário pré-determinado para o banho dos rapazes e moças, quando esses forem pernoitar nas instalações do colégio.

Ambiente de descanso improvisado


Estudantes improvisaram o ambiente de descanso ocupando duas salas de aula do colégio. Colchões e cobertas foram trazidos de casa para o ambiente escolar.

Pais e responsáveis acompanham os filhos durante a noite. Enquanto alguns dormem, há um outro grupo do lado de fora escolado para fazer rondas noturnas periódicas no interior do colégio.

Câmeras de segurança do local também ajudam a monitorar alguma movimentação estranha nas proximidades.

Refeitório


O local destinado para as refeições é outro detalhe que chama a atenção e mostra a organização do grupo. Mesas e cadeiras que antes eram usadas para estudar ganharam uma nova função. Como parte da decoração, vasos com flores artificiais em cima das mesas dão um toque de leveza ao ambiente.

Quanto ao local de preparo das refeições, o grupo improvisou um espaço para tal, já que os alunos não têm acesso à cozinha do colégio. Quando por algum motivo falta estrutura para o preparo de uma refeição os estudantes se dispõe em preparar a comida em casa mesmo, e trazê-las até a unidade de ensino com a ajuda dos colegas.

Os alimentos são guardados em local específico e arrecadados através de doações feitas por voluntários ou a junta de dinheiro na famosa "vaquinha", pois os estudantes não estão autorizados a consumir a merenda do colégio durante as ocupações.

Regras


O grupo segue a política de colaboração, prezando sempre pelo respeito em todos os sentidos. Para evitar que algum aluno sinta-se sobrecarregado nas tarefas, uma das ordens é a participação de todos, sem exceção, nas atividades diárias. Outro item que é seguido a risca é o toque de recolher, ou seja, a "hora de dormir".

O ditado do sujou, limpou, desarrumou, arrume, também deve ser levado a sério por todos. Respeitar a hierarquia sempre comunicando um dos representantes do grupo sobre suas decisões é outro item que compõe uma das regras. Palavrões então, nem pensar.

Horário para tudo


Durante todo o dia os alunos desenvolvem tarefas diversas no colégio, atividades essas que são definidas de acordo com as necessidades estruturais existentes no local.

Todas as tarefas servem para ocupar o tempo ocioso e prezar por melhorias no ambiente escolar. Como descreve um dos cartazes, há horário para tudo. Os alunos que quiserem ir embora para suas casas após as atividades podem fazê-lo, desde que isso aconteça até às 20h informando, é claro, os monitores do colégio.

Entre as tarefas que foram inclusas no cronograma no decorrer da semana está a de dar nova vida as cores do colégio e demais reparos e reformas do ambiente escolar.

Proibições


Estudantes que quiserem se unir ao grupo devem se atentar para as práticas consideradas proibidas, que independente da ocupação não combinam nenhum pouco com o ambiente escolar.

A entrada nas dependências do colégio é liberada somente aos alunos e responsáveis. É exigida também a apresentação da carteira do estudante logo na entrada a fim de evitar que pessoas estranhas e fora do convívio escolar adentrem a instituição.

Na próxima semana o Linkada News estará visitando os outros colégios ocupados para mostrar as particularidades de cada ocupação.

(Fotos: Adilson Santos e Anderson Ribeiro)


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